Blog do Professor César Renato


Depois de algum tempo inativo, e pela disposição e necessidade de estabelecer novamente um canal de comunicação com meus interlocutores externos, este blog volta ao ar.
Nele pretendo, dentro do possível, semanalmente discorrer sobre algumas questões que julgo importantes e que percorrem minhas comunidades em alguma medida, tanto no micro-espaço que me situo, quanto no macro-espaço social onde estamos todos.
Quem pretendo alcançar são aqueles que estou mais perto, como família, especialmente meus filhos, amigos, alunos e colegas em geral. Minhas colocações buscam alcançar meu ponto de vista sobre temas que acredito serem pertinentes a discussão.

segunda-feira, junho 23, 2014

Quanto vale a emoção? Copa do Mundo no Brasil, produto de compra e venda! #onegóciodosnegócios

Nesse momento, em que deve ter começado mais um jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo no Brasil, quero refletir sobre cultura, e a partir dela expressar minha opinião sobre a atualidade e as circunstâncias em que vivemos. O Futebol é um dos elementos mais sacros da cultura brasileira, dele e por ele definiram-se muitos de nossos instrumentos e artefatos culturais. Musicas, arquitetura, artes plásticas, literatura, cinema, comportamento ... isso se consolidou de maneira tão efetiva que hoje faz parte de nossa tradição. Será mesmo?
Quando falo de tradição, me refiro a uma construção histórica que estabelece costumes que vem do passado e com essa marca são transmitidos e conservados. A nossa tradição futebolística se refere à bola de meia, às peladas na várzea, à folha seca, aos Manés e Pelés, que da humilde  e microscópica partida no “campinho” se projetavam direto para a emoção de cada um de nós.
Agora me pergunto, se investigarmos sobre esses termos que acabei de expor a um jovem de trinta anos ou menos, alguém acha que eles saberão o que é isso? Alguém acha que para a esmagadora maioria dos jovens, que são hoje apaixonados por futebol, essas expressões fazem algum sentido? Definitivamente não!
Essa cultura tradicional a que me referi, não existe mais, o que existe agora e que cada vez se consolida mais na estrutura cultural das pessoas em todo o mundo, é uma outra forma de cultura, a “cultura de massas”. Nela os termos referentes para o futebol são R9, CR9, NJR, Soccer, Fifa Championship, linha de quatro, Fifa Fair Play, e também “etecetera”! Todos esses termos foram colocados em um liquidificador e homogeneizados, depois disso entregues às mentes de todos nós, especialmente os que gostam e se emocionam com o futebol. E porque isso? Porque essa emoção que temos, nos sugere desejos e esses desejos nos serão fornecidos cada vez mais intensivamente, a custa de três acontecimentos extraordinariamente envolventes no mundo moderno: o consumo, o lucro e a alienação!
Para falar dessa transposição da “cultura tradicional” para “cultura de massa” preciso conduzir minha reflexão a uma viagem no tempo. Quando isso tudo começou? Porque começou? E quem começou?
Ha cerca de quatrocentos anos atrás extinguia-se uma forma de atendermos nossas necessidades e nascia outra. Houve uma mudança no modo de produção das coisas e alterou-se significativamente o valor que essas coisas tinham para quem as produzia e as consumia. No ocaso de uma cultura e no despertar de outra, saíamos da  “escuridão” do produzir para nós mesmos, para nossas próprias necessidades, a partir de nossas próprias sabedorias, onde as coisas tinham um único valor de uso, e nos projetávamos para a “luminescência” do produzir para outros consumirem, para atender o desejo de consumo de outras pessoas, a partir de sabedorias fragmentadas pela técnica, pela administração, pela especialização e pela divisão do trabalho. A cultura de massa condicionava os movimentos, e o valor das coisas era expresso pelo interesse, onde a troca de um produto por capital era o ponto determinante na produção de tudo.
Pois bem, chego novamente a Copa do Mundo no Brasil, e me refiro a um dos produtos mais eminentes para a acumulação de capital aos que o produzem. O FUTEBOL!
Milhares de milhões de dólares estão relacionados a produção e ao consumo desse produto. Milhões de pessoas estão inseridas  nessa díade econômica. Infinitas possibilidades de satisfação de desejos são orientadas aos produtos, que tem sua origem na emoção provocada pela prática deste esporte. Entre eles, os mais importantes são material esportivo, de modo direto e, automóveis, bebidas, alimentos, viagens, filmes, televisão, rádio, entre milhares de outros, de modo indireto.
Uma indústria espetacular se movimenta para que todos esses produtos sejam distribuídos e toda essa distribuição resulte em incontáveis somas de dinheiro. Muito capital se acumula em razão desse negócio gigantesco. A indústria da comunicação se articula das formas mais elaboradas e toda a máquina se volta para a construção de uma cultura de massa, que favoreça a elaboração desse fabuloso negócio!
Isso, de certa forma é uma componente que faz funcionar a sociedade de maneira geral, onde incontáveis estruturas sejam organizadas para movimentar essas engrenagens. Nessa ordem social, o mundo deixa de existir para as pessoas e passa a existir em função do capital gerado, e em função especialmente de um objetivo. O Lucro!
Isso parece bom, não é mesmo? Dado que tal lucro proporciona a todas as pessoas a possibilidade de comprar, de ostentar, de acumular, não é verdade? NÃO, NÃO é verdade!
Cada vez fica mais evidente que todo esse lucro é dividido de maneira desigual. Estudos recentes comprovam que a acumulação de capital se concentra em um número diminuto de pessoas, e toda a grande maioria apenas obtém recursos para uma sobrevivência restrita, baseada no consumo desenfreado de cada vez mais produtos e, na total devoção dessa esmagadora maioria da sociedade, ao trabalho, para obter esses produtos. E o que é mais aterrorizador, a medida que esse sistema se consolida, se percebe que outros milhões de pessoas ficam alijadas de um processo sanguinário de distribuição de renda.  Há no mundo todo atualmente cerca de dois bilhões e meio de pessoas que não participam desse organismo econômico, e por essa ausência de possibilidades, passam fome, morrem por conta dela!
Porque a maioria da sociedade aceita essa condição? A resposta está no terceiro elemento dessa tríade - consumo, lucro, alienação.
A alienação. Essa mesma indústria de comunicação que promove o consumo e favorece o lucro, impõe a cultura do trabalho, informando intensivamente que só se chega ao paraíso do capital, pelo esforço contínuo e pela via do trabalho. Dessa forma, o homem trabalhador se aliena de suas origens, de sua tradição, de sua cultura e de seu conhecimento, e se entrega ao mundo do trabalho vendendo a ele o único meio que possui naturalmente, a sua força para o trabalho. Ele estuda para o trabalho, se move para o trabalho, habita para o trabalho, ora pelo trabalho, se escraviza no trabalho, todo dia, todo ano, toda vida!
A Copa do Mundo no Brasil, nos mostra os personagens dessa realidade social, que interagem em confronto dialético interminável. De um lado as organizações econômicas, como a Fifa, e de outro todo o resto do povo, que trabalha para essas organizações. No meio desse convívio aparece o Estado, que com suas leis, suas estruturas e sua condição institucional, ambienta o mundo para as organizações, serve de maneira efetiva as organizações, posto que sem elas, não há possibilidade de existência dessa sociedade, que todos nós criamos e aceitamos nos últimos quatrocentos anos.
Lutar contra essa realidade é tão utópico quanto a batalha quixotesca da espada frente aos moinhos de vento, por isso a grande maioria de todos nós (me incluo nesse conjunto) luta sem pensar, luta sem resistência, luta totalmente alienado a qualquer outra possibilidade.
Como podemos continuar vivendo isso sem pensar nisso? Nesse momento, por minha iniciativa pessoal e íntima, da forma que encontrei, me manifesto.  Cumprindo um jejum que me impõe o sacrifício de abrir mão de algo que gosto muito, o futebol. NÃO assisto os jogos do Brasil na Copa do Mundo. Isso fará a diferença necessária para o mundo? Claro que não! Mas fará a diferença para mim! É a parte que me coube, e não estaria tranquilo sem cumpri-la!

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