Blog do Professor César Renato


Depois de algum tempo inativo, e pela disposição e necessidade de estabelecer novamente um canal de comunicação com meus interlocutores externos, este blog volta ao ar.
Nele pretendo, dentro do possível, semanalmente discorrer sobre algumas questões que julgo importantes e que percorrem minhas comunidades em alguma medida, tanto no micro-espaço que me situo, quanto no macro-espaço social onde estamos todos.
Quem pretendo alcançar são aqueles que estou mais perto, como família, especialmente meus filhos, amigos, alunos e colegas em geral. Minhas colocações buscam alcançar meu ponto de vista sobre temas que acredito serem pertinentes a discussão.

sábado, julho 12, 2014

O dilema de uma sociedade econômica versus a redenção do homem sobre a terra! #paremasmaquinas

Durante todo esse mês, enquanto aconteciam os jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo da Fifa 2014, por uma manifestação pessoal, resolvi NÃO assistir os jogos  do escrete canarinho. Essa manifestação esteve baseada em uma forma individual de protestar contra o estado de coisas posto na atualidade, mas também na possibilidade de refletir pessoalmente e na interação com quem ler essas crônicas sobre uma série de realidades que compõe e estruturam a sociedade em que vivemos.
Inicialmente, sob meu ponto de vista, acredito que a Copa do Mundo da Fifa, reflete uma condição maior de postura social. Atualmente vivemos por um objetivo eminentemente econômico, que busca orientar a vida humana para o trabalho, como ação prioritária em busca da acumulação de capital, em detrimento da preocupação que se deve ter com a qualidade de vida, com a estruturação da cultura popular, com a integração entre as pessoas e com a convivência possível entre seres humanos e os demais elementos que compõe a biosfera.
Nessa escolha em que todos fizemos, há uma clara distinção entre seres humanos em classes sociais diametralmente opostas. De um lado um pequeno grupo de pessoas que detém os meios de produção, que serão aplicados na produção de mercadorias e sua disponibilização ao consumo, se apropriando indevidamente do excedente de capital que esta distribuição acarretar; de outro, a grande massa social, que incapaz de possuir meios de produção e pressionados pela necessidade de sobrevivência, se enquadram no sistema socioeconômico, vendendo sua força humana de trabalho e garantindo o consumo das mercadorias postas a venda. Essa divisão cria cada vez mais dois grupos muito distintos em relação ao capital, sendo que o primeiro, cada vez mais restrito acumula capital intensivamente, se aproveitando das benesses desse efeito e reinvestindo o excedente em outros mecanismos de produção industrial e serviços; e o segundo grupo, restrito de condições econômicas, ou garantem sua sobrevivência da forma que lhes é possível, ou sendo arrastados para o banimento das condições razoáveis de vida humana, aumentando o contingente de excluídos deste sistema econômico voraz.
Nesse formato, há um papel de mediação, cumprido pelo Estado, organizado por governos em diversos níveis, municipal, estadual e federal, no caso de nosso país, que apesar de ter surgido para atender o interesse da sociedade como um todo, acaba se tornando organismo servil da minoria que detém o poder econômico. Os governos e os políticos, são inicialmente escolhidos na grande maioria das vezes pelo instrumento social do voto, onde todos os cidadãos tem o direito constitucional de exercer seu poder de escolha, contudo, após assumirem seus cargos públicos, pervertem o desejo popular de quem os escolheu e assumem um papel na institucionalização, judicialização e proteção das organizações econômicas, no sentido de garantir-lhes cada vez mais privilégios e caminho livre para atingirem seus objetivos de lucro e acúmulo incessante e progressivo.
Nesse contexto de perversão da sociedade de todos para a sociedade de garantia às organizações econômicas, há ainda um pesado esquema de produção de cultura de massa, criando um ambiente que aliena as mentes humanas, produzindo nas pessoas uma automação para o trabalho e para o consumo, em detrimento a sua ação social coletiva, construída no amálgama formado pela cultura popular, pela integração dos seres e pela interação com a natureza, que promova a vida em sociedade ordenada pela busca da qualidade de vida e o uso adequado de recursos naturais.
Essa escolha socioeconômica enfim, torna-se possível apenas no formato intensivo, tanto na concentração humana, quanto na produção crescente de produtos, bens e serviços, para o consumo que produz acúmulo de capital. Por isso as estruturas são organizadas a partir da criação de grandes aglomerações humanas, concentradas em espaços geopolíticos de fácil acesso pelos mecanismos de distribuição e massificação humana, torneadas pela cultura de massa, que determina a homogeneização das pessoas, de suas escolhas e seus costumes. Vivemos em grandes tribos, pensando e desejando a mesma coisa, que a máquina de produção das estruturas de organizações econômicas cria e que a indústria da cultura de massa implanta em nosso inconsciente como produtos de nosso desejo.
A Fifa, organizadora central da Copa do Mundo, é um exemplo desse tipo de organização econômica, que como muitas outras, são núcleos vitais desse sistema. Comandam a sociedade econômica, a partir de uma dominação formal e legal, possível a partir da burocratização da vida em sociedade, e da limitação e opressão que os governos servis impõe aos cidadãos. Somos todos nós, classe dominante e classe dominada, estereótipos autômatos, criados por uma cultura de massa, onde uns compõe uma elite, e todos os outros, servos do sistema econômico que sustenta e provê os objetivos econômicos.
Na verdade não poderia concluir essa reflexão com tom de apologia contra ideológica, sem emitir uma posição pessoal sobre o que escrevo. Minha posição contrária está, e esteve ao longo de minhas crônicas, muito clara. Esse império de alguns sobre todos, instalados nas estruturas das organizações econômicas e defendidos pela estrutura de um Estado servil e corrupto, potencializando a riqueza de um lado, e a opressão e dizimação das possibilidades de vida igualitária da sociedade de outro, não reúne condições de existência perene, sem que o caminho seja o caos e a extinção da raça humana. Mas frente a essa realidade hostil, qual é a solução?
É Evidente que não vou escrever em algumas próximas laudas desta reflexão, onde no final serão apresentadas soluções para esse dilema indissolúvel. Não tenho a mínima capacidade intelectual que sinalize qualquer possibilidade nesse sentido. Aqui, e no decorrer do texto, há uma posição de um cidadão, que organiza algumas ações que podem estar orientadas para uma transformação, que mesmo que mínima no contexto holístico da sociedade, são resultados de minha opinião pessoal na transformação da sociedade.
Primeiro de tudo, há uma necessidade eminente de reduzirmos o ritmo frenético de produção de mercadorias, bens e serviços, que alimentam um esquema de consumo absurdo, tanto pelo fato de que são muito maiores em volumes, daquilo que realmente necessitamos, e ainda pelo fato de que, para sua viabilização produtiva, está ocorrendo uma apropriação abusiva dos recursos naturais disponíveis.
O movimento que tenho chamado, ao longo de minha atividade acadêmica, de “parem as máquinas”, encaminha a organização econômica para isso. O consumo, orientado para necessidades humanas baseadas no uso e não na troca, exige uma demanda muito menos de produtos, bens e serviços, o que produziria de modo crescente uma redução dos mecanismos de produção industrial e ação mercantil. Essa redução instituiria uma nova demanda humana, menos intensiva e baseada em desejos estéreis, criados por posição de status social e discriminação de uns em detrimento de outros.
Quando me refiro a uma parada nas máquinas, não estou dizendo que, de hoje para amanhã, precisemos fechar todas as fábricas de automóveis, refrigerantes, calçados, etecetera; ou intervir em todos os bancos privados, redes de televisão, e federações internacionais de futebol, como a Fifa, ou outros esportes. O que digo, é que será necessário uma sociedade que conduza o cidadão para usos e costumes não econômicos e sim sociais. Os lucros das organizações econômicas tem que existir, mas em grande parte e necessariamente, reverterem-se em ações que promovam o fim da exploração humana para o trabalho, em investimentos sociais que complementem a subsistências das massas que não tem possibilidade de emprego e renda, em humanização dos espaços urbanos, hoje criados para prédios e carros, em detrimento da natureza e das pessoas.
A cultura de massa, que homogeneíza o pensamento humano, fazendo com que só um componente cultural seja absorvido por uma grande massa de pessoas, precisa interromper seu processo de crescimento. Essa cultura, produzida por organizações de comunicação elitizadas, orientadas e comandadas apenas por um grupo seleto de pessoas, precisa ser tomada por grupos mais diversos, mais amplos, mais democraticamente constituídos. Os conhecimentos precisam ser aplicados em uma base de referência ampliada, com uma gama de informações que considere várias tendências, tipos de seres humanos mais diversos, homens, mulheres, orientações sexuais diferentes dessas; raças diferentes da predominância branca; cidadãos da periferia, das cidades, das colônias, das tribos, enfim, a cultura deve ser constituída de tantos fragmentos, quanto tantas manifestações distintas sejam produzidas.
Essa “nova expressão cultural” tem um nome, e nos remete a algo que não é novo, e sim foi reprimido pela cultura de massa. A cultura tradicional, que aplica conhecimentos a partir de sabedorias antigas, passadas à sociedade geração após geração, dos nossos avós a nossos pais, e dai para nosso domínio, é esse núcleo cultural poderoso, capaz de reconstituir uma sociedade de homens e da natureza. A cultura tradicional existe no seio de cada uma das comunidades, e a diferença de uma comunidade para outra tem que ser preservada, sob pena de romper a independência e legitimidade de povos que fazem escolhas para si e para seus pares e desta forma romper a vida em sociedade como um todo, pois na há igualdade, em ambientes que distingam uns, com poder, e outros, minorias reprimidas. A cultura tradicional é a cultura da musica que queremos ouvir, da roupa que queremos vestir, da comida que queremos digerir, e não de uma única “coisa” criada apenas na premissa da produção e do consumo intensivo.
Outro efeito indispensável para a pulverização do dilema que nos corrompe, é a incondicional destituição dos aglomerados urbanos. Atualmente vivemos empilhados em caixotes de concreto, em formigueiros humanos, em apinchados de seres autômatos. Tribos condicionadas que pensam do mesmo modo, caminham para o mesmo sentido, respiram o mesmo ar, cada vez menos privados de oxigênio e ar saudável, cada vez mais orientados pela mesma flauta hipnotizante. O interior dos territórios nacionais estão abandonados a sua própria sorte, porque esses espaços geográficos estão longe da possibilidade de distribuição lucrativa de produtos, ou são absorvidos pela produção intensiva de “commodities”, ou seja, uma roça comum de produtos agrícolas que não são produzidos para que a população seja alimentada, mas sim para criar contratos financeiros, e exportadas para locais do planeta, que não tem a menos identificação com sua geração natural. Esses espaços, mais organizadamente distribuídos, criarão populações mais consistentes em sabedorias, bem estar e convivência saudável com suas comunidades e com a natureza. As máquinas precisam parar também na produção intensiva de alimentos, onde as safras são decididas primeiro nas bolsas de valores espalhadas pelo mundo, e depois se determina quando serão consumidas e quem fará isso, muito embora na maioria das vezes são produto de desperdício, apodrecendo em estoques mundiais, enquanto milhões de cidadãos passam fome por serem excluídos de sua existência.
Finalmente, a lógica do Estado precisa mudar, os governos e governantes precisam mudar, a política e as formas de gestão precisam mudar. A institucionalização de uma democracia representativa foi produzida face as grandes aglomerações urbanas, onde poucos tem que decidir por muitos. O Fim das aglomerações irá certamente contribuir para uma forma mais direta de democracia, onde todos, o tempo todo, podem tomar suas decisões de existência. Uma política de poucos políticos, produziu ao longo da história, e produz nos dias de hoje, a existência de sujeitos individualistas, que pensam exclusivamente em deter poder e dinheiro, não se importando com decisões que sejam de atendimento amplo as comunidades. Desta ação egoísta de nossos políticos, surgiu a corrupção, as barganhas, os favorecimentos, a improbidade e a riqueza ilícita. O fim desses personagens sinistros é uma necessidade eminente de uma nova sociedade, que pode pensar no milagre da manutenção da vida e da natureza.
Nesse momento, creio que a Copa do Mundo da Fifa tenha acabado para a seleção brasileira. Já sabemos que a derrota acachapante que esses sujeitos, atletas operários da Fifa, sofreram. O que acho sinceramente, é que os atletas campeões e os derrotados perdem. Os primeiros menos, pois tem um resíduo de alegria, baseado nas migalhas da conquista histórica, que não é nada perto dos volumes que a exploração sobre eles criou, e os outros ainda pouco, pois sua derrota só será sentida por eles mesmos, e pela população que os apoia. Essa tristeza e alegria estéril e superficial, é produto da cultura de massa difundida pelas organizações econômicas como a Fifa, que cria esse circo de ilusões, e sob suas lonas acumula as imensas vantagens econômicas que esses pobres atores sociais produzem a elas. Esse tipo de sociedade tem de acabar. Por isso escrevi tudo isso, ao longo desse mês que abrigou no tempo esse evento de alguns lobos e milhões de carneirinhos!

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